sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Fazer humor



Fazer humor – Parte 1
Tenho acompanhado o Globo Esporte com um pouco mais de atenção desde quando Tiago Leifert assumiu em boa parte a apresentação do programa. Com suas piadas muitas vezes idiotas e brincadeiras um tanto infantis, ele conseguiu trazer humor à um programa de esportes. Por outro lado, programas como ‘A turma do Didi’, ‘Casseta e Planeta’ e ‘Zorra Total’ têm cada vez mais perdendo espaço, em boa parte pelo fato de usarem um estilo antigo de fazer humor.
É triste ver a emissora que criou ‘Os Trapalhões’ ter como melhor programa de humor um programa de Esportes. Afinal, existe receita mágica para se fazer humor?

Crônicas ‘Temporárias’

Eu me lembro da época do ‘Sai de Baixo’, todo domingo depois do Fantástico. Como tinha que levantar cedo pra ir à escola no dia seguinte, muitas vezes não pude assistir, porém cada vez que eu assistia era risada na certa. Este programa seguia o estilo de ‘sitcom’ (situation comedy) que são shows que utilizam de eventos e situações do cotidiano para fazer humor, numa espécie de ‘crônica encenada’. Hoje, os famosos stand-ups utilizam o mesmo estilo, criticando e satirizando aspectos da sociedade, contando a verdade de maneira divertida. É possível fazer um show de stand-up que dê as mesmas notícias que o Jornal Nacional mas com uma diferença importante: o humor.
Em sitcoms não é necessário criar pessoas extremamente burras, super heróis, pessoas vestidas de bebê, entre outros para se fazer humor, muito menos ficar contando piadinhas. A piada está em QUALQUER lugar, basta conseguir enxergar. É assim que os stand-ups funcionam, é assim que o Thiago Leifert funciona e é assim que programas como Sai de Baixo, A Diarista, A Grande Família, Toma-lá-da-cá, The Big Bang Theory, Modern Family, Os Normais e tantos outros fizeram ou fazem sucesso.
Crônicas e satirizações dificilmente saem de moda, mas envelhecem. Por exemplo, se você assistir à um episódio do Casseta e Planeta aonde eles satirizam uma novela que você não se lembra mais, ou alguma decisão política antiga, você provavelmente não achará engraçado. Ao mesmo tempo que se você separar boa parte dos comentários de Thiago Leifert do contexto da matéria, ele não só perderá o sentido como também a graça. Fazer humor sobre eventos ‘noticiáveis’ como a final de um BBB, uma eleição, uma novela, uma decisão política tem sérias limitações. Em primeiro lugar o público-alvo deve conhecer o tema ‘real’ que está sendo satirizado. Se você falar ‘Ronaldo!‘ pra alguém que não assiste ao Pânico na TV, provavelmente não irá causar efeito algum. A segunda limitação é que esse tipo de humor tem um ‘prazo de validade’, ele não dura pra sempre. A sátira sobre eventos atuais duram tanto quanto o evento que está sendo satirizado, no máximo um pouco mais. Esse tipo de humor precisa ser renovado com uma frequência constante.

Crônicas ‘Eternas’

Por outro lado as sitcoms são ‘crônicas da vida diária’, eventos relativamente universais que podem acontecer ou já aconteceram com qualquer pessoa. Muitas sitcoms são completamente livres de fatores ‘temporários’ como política, esportes, novelas e etc. Dificilmente um americano que não conhece nada sobre o Brasil iria rir com Casseta e Planeta mas poderá muito bem achar graça em A Grande Família, Sai de Baixo, A Diarista, Chaves e outros, da mesma maneira que nós assistimos à sitcoms estrangeiras como Fresh-Prince Bell Air (Um Maluco no Pedaço), Modern Family, Everybody Hates Chris, According to Jim, Two and a Half Men, The IT Crowd, Chaves entre tantos outros.
Um exemplo prático da universalidade e da eternidade desse tipo de humor, é o bom e velho Chaves!Quem ria assistindo Chaves 5 anos atrás, irá sentir o mesmo daqui à 20 anos. Pessoas que não eram nem nascidas na época em que Chaves foi produzido (como eu) também podem se divertir tanto quanto. Isso ocorre porque o programa é isento de um fundo ‘temporal’. A estrutura de Chaves é baseada em histórias simples que podem ocorrer em qualquer lugar e em qualquer tempo, isso tornou possível traduzir o programa para vários países e continuar adquirindo novos fãs mesmo depois da série ter sido encerrada.

As misturas

É possível misturar humor temporal com atemporal, é uma coisa estranha, mas possível. Enquanto programas que utilizam apenas um dos caminhos geralmente possuem episódios curtos, os que misturam ambos normalmente têm longa duração. Três grandes nomes do humor brasileiro agem dessa maneira: CQC, Pânico na TV Casseta e Planeta. É possível diferenciar durante os episódios deles as partes ‘temporais (com prazo de validade)’ das ‘eternas’. Sempre causará riso ver deputados assinando sem ler uma proposta que adiciona cachaça à cesta básica (CQC) ao mesmo tempo que grande parte das ‘críticas sociais’ do CQC irão perder o sentido conforme passa o tempo.

P.S.

Minha intenção neste texto não foi favorecer ao tipo A ou B de humor tampouco criticar a rede Globo. Tanto o humor ‘temporário’ como o não tem seus méritos, a única diferença é o quão ‘universais’ eles são, o quão grande é o contexto aonde eles podem ser inseridos. Ambos os tipos podem possuir programas ‘bons’ e ‘ruins’ assim como QUALQUER programa de humor eh excelente para algumas pessoas e uma merda para outras.
Filmes, séries, talk shows, reality shows e etc podem ser divididos e catalogados por várias maneiras: gênero, país, recomendação etária, produtora, distribuidora, diretor e por outros aspectos menos ‘óbvios’ como estilos de roteiro, filmagem, personagens entre outros. Este texto retrata uma maneira possível de dividir o humor em um certo tipo de categoria, sem favorecer uma ou outra.


*agora, pra falar sério, essa opinião caiu como uma luva no meu quesito de humor também. Os colunistas do Sedentário fazem um ótimo trabalho.

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